19
ago
2009

É fácil ser otimista ou pessimista. Difícil é ser responsável

por

Julio Sampaio

É comum se falar que no Brasil o ano começa após o carnaval. Considerando que após a quarta-feira de cinzas, restariam apenas dois dias ditos úteis, melhor é deixar para a segunda-feira seguinte. Em 2009, isto equivale ao dia 02 de março. É nesta data que parece que o ano começa para valer. Já terão se passado, porém, dois meses inteiros, ou 16% dos dias do ano.

É lógico que isto não vale para todos, mas várias pessoas somente agora vão entrar no ritmo e tentar atingir o que projetaram no final de 2008 para este ano. De lá para cá, as coisas não mudaram muito. A crise econômica parece tão forte quanto antes, só que agora mais amadurecida, provocando estatísticas, se aproximando cada vez mais de nosso mundo real. Não precisamos ter sido atingidos diretamente pela crise. Ela está no ar. Está na mídia, nas empresas, nas histórias de amigos e conhecidos.

Há o discurso dos pessimistas, que de tão ruim, é difícil até de reproduzir. De outro lado, há os que, como o nosso presidente, acreditam, ou já acreditaram, se tratar de uma simples marola, que não nos afetaria. Diante destas duas posições extremas, qual seria a atitude mais construtiva?

O pessimismo, a crença de que o pior é inevitável, poderia nos levar a uma profecia auto-realizável, a de entregar os pontos antes mesmo do jogo. A crença de que não depende de nós, e de que caberia aos culpados (governantes, banqueiros e executivos das grandes empresas) a tentativa de corrigir o mal que fizeram.

O otimismo, por outro lado, nos colocaria numa situação de alienação, e igualmente de auto-indulgência. Neste pensamento, as coisas logo vão melhorar, independentemente do que fizermos. É apenas uma questão de tempo. Os pacotes do presidente Obama, alçado neste momento, a candidato a super-herói, servirão para reverter a situação. Logo virá o segundo semestre do ano, e aí, como vários economistas já previram, as coisas estarão melhores.

Friamente, as duas posições parecem ingênuas e arriscadas. Elas se contrapõem a uma outra atitude que parece ser mais real e madura, o da responsabilidade. Nela, não somos apenas agentes figurantes. Ao contrário, temos escolhas a fazer e elas contribuirão para a construção do futuro. Ele ainda não está desenhado, como sugerem os fatalistas ou os iludidos, e dependerá das escolhas que fizermos agora.

Ulrich Becker, em sua teoria “Sociedade de Risco”, difere os conceitos de risco e de perigo. Segundo ele, os riscos estão associados a um elemento decisor. É um estado intermediário entre a segurança e a perda, a catástrofe.

Somos, em grande parte, reflexo do mundo em que vivemos, mas também somos elementos que influenciam este mundo. Como fazer a nossa parte? Como fazer escolhas que contribuam para que o mundo a nossa volta se torne um pouco melhor? Como equilibrar os nossos diversos papéis, e não deixar cair nenhum dos pratos?

A crise que vivemos, não é apenas econômica. Ela é acima de tudo de confiança, nas pessoas, nas instituições, nas intenções, no que é dito ou feito, em nós mesmos. A confiança é uma conquista, um exercício diário, em tempo indefinido. É difícil construir e muito fácil destruí-la. Basta às vezes, um pequeno deslize. E quem não os comete? Além disso, também é difícil confiar, o que dificulta as coisas. Como obter (confiança), quando não a oferecemos?

Cada um de nós pode ser alguém que contribua para a superação desta crise mundial. A economia só se sustenta se existe a confiança, e ela é fruto de nós mesmos, seres individuais.

É fácil ser pessimista ou otimista diante de uma crise. Mais difícil é ser responsável, e fazer a parte que cabe a cada um. Como o ano está começando de novo, após o carnaval, que tal re-começarmos também por ai?

Julio Sampaio é sócio da Resultado Consultoria de Marketing e Vendas e Vice-presidente da ADVB-PR

 

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