17
abr
2009

O que é que não vamos fazer mais

por

Eloi Zanetti

Sócrates, desde criança, dizia conviver com um daimon - um demônio interno - que sempre lhe instruía sobre as ações que não deveria fazer. Uma espécie de consciência que jamais orientava sobre o que fazer e sim sobre os caminhos a não seguir. No final da vida, comentou que o hábito de ouvir seu orientador tinha-o livrado de eventos desagradáveis e de centenas de decisões erradas. Pode-se chamar a isto ouvir a intuição.

Um pouco antes, outro filósofo, Tales, moldou a máxima: “Conhece-te a ti mesmo”, que muita gente confunde com “devemos conhecer nossos pontos fortes.” É exatamente ao contrário: devemos nos conhecer melhor para reconhecer os pontos fracos, para não aceitar trabalhos que não estamos aptos a realizar e não nos metermos em negócios além da nossa capacidade de assimilação. Quando não se está ciente nem à vontade com uma decisão a ser tomada, o melhor é esperar a convicção, e se ela não aparecer, cair fora. Com certeza se estará no caminho errado.

Recentemente, estudando a obra de Nassin Nicholas Taleb, um economista-financista que trabalha com os fatores aleatórios da sorte, encontrei ensinamentos sobre o mesmo assunto. Empresas e pessoas deveriam prestar mais atenção nas coisas que não devem fazer.  Porém, como o exercício do controle e do limite da ação humana não é para qualquer um, acabamos por exagerar nos gastos, querer fazer tudo e ao mesmo tempo, comer muito além do necessário, ultrapassar as velocidades permitidas, falar demais e soltar as rédeas da criatividade. Numa época em que a palavra “temperança” ficou relegada às atividades da gastronomia, o exagero tomou conta do mundo. É por isso que estamos no meio de uma crise, resultado do que fizemos e não do que não deveríamos ter feito. Houvesse mais controle e rédea curta, não estaríamos angustiados e lamentando as oportunidades perdidas. Bismarck, ao tomar uma medida impopular para a elite alemã, rebateu as críticas dizendo: “Eu só estou protegendo vocês de si mesmos.”

Para mim, que trabalho com comunicação e marketing e tenho que exagerar na criação de caminhos alternativos para ajudar meus clientes a vender mais, a tentação de colocar em prática as dezenas de idéias geradas nos exercícios de brainstorm é grande. Aprendi com o tempo que por melhor que seja a idéia o mais sensato é colocá-la no “estoque de idéias”, lugar onde ficam aguardando a vez para ser usadas.

Empresas que começam a dar certo e a ter sobras de capital logo iniciam um frenesi de lançamentos de novos produtos, ações mercadológicas e associações esquisitas, aberturas de novas e suntuosas sedes e investidas em mercados de alto risco.  Correm à solta porque ninguém tem coragem de chegar à diretoria e dizer: “Parem com isso! Vocês podem quebrar a empresa.” Depois do frenesi de ocupação de territórios, de dezenas de produtos lançados, a maior parte deles dispensável, alguém diz: “Precisamos nos desfazer de tal linha, vender tal unidade, começar a dar foco aos negócios, voltar ao nosso core-business.” Ora, não teria sido mais salutar se a aventura fosse brecada no início? Este pode ser um pensamento conservador, concordo, porque a inovação nasce dessas ousadias, mas em muitas ocasiões é necessário dar um limite à nossa criatividade e, às vezes, o mais criativo é não fazer nada. É da natureza humana não escutar os conselhos sobre o que não fazer. É por isso que os livros de auto-ajuda só tratam de conselhos do tipo faça isso, faça aquilo e pouco sobre o não fazer. Prevenção e profilaxia não são assuntos para nós - latinos.

Eloi Zanetti - eloi@eloizanetti.com.br

 

Um comentário para “O que é que não vamos fazer mais”

  1. Eloi, li o artigo acima, gostei muito do bom-senso que você colocou.
    Prof. Maria de Lourdes

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